Margem

Tenho um rio dentro de mim. Um rio bravo, que insiste em derrubar palafitas –últimas resistências de estruturas emocionais nesse peito cansado de caminhar. Levei a vida a construir barragens. Cada medo, cada autoproteção, cada afirmação mentirosa para mim mesma, serviu para construir uma estrutura forte para esses desejos.

Então veio você e tirou uma pedrinha. Eu disse, eu me disse um sem-número de vezes que você não ia tirar mais do que pequenos pedaços de concreto. Talvez alguma água escorresse, uns respingos escapassem, mas ainda estaria tudo sob controle. Mas não. Você veio, tirou meia dúzia de pedras e já derrubou aquela barragem que levei anos para construir. A água escapou de uma vez, molhou tudo, saiu destruindo as certezas, submergindo as cautelas, me deixando sem chão.

Agora, como lidar com essa vida alagada? Como não te ensopar com a intensidade do meu medo? Como achar um barco para te colocar em segurança, para não te embeber dos meus desesperos? Não quero te colocar à margem, observando sem perigos essa inundação, mas também não quero que minha corredeira te assuste, não quero que você desista por medo de se afogar. Não quero que você vá embora.

Só quero que você me nade
Quem é a autora?

Marília Teddy

Paulistana com raízes nordestinas, tem 29 anos, é educadora, escritora, canceriana, sincera adoradora de gatos e entusiasta dos memes. É autora da Fanchine, uma zine de literatura sobre o amor entre mulheres, na qual este texto foi publicado.

One thought on “Margem”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *