A mulher que foi

Morreu. Não sabe bem como foi.

Cortou os pulsos. Tomou veneno. Foi abaixo. Se jogou do alto. Soterrou. Terminou o namoro. Pedacinhos pelos trilhos do metrô, corpo jogado na linha do trólebus, na vala, na estrada.

“Muito bem” — pensou — “não sobrevivi”. Nos últimos instantes daquela que “já era”, não enxergou luz no fim do túnel, mas ouviu bem a voz grave que sussurrava firme: “morre desgraçada!”. Ela mesma falou para si.

Passou o final de semana consigo falecida.

Segunda-feira chegou e foi preciso juntar os próprios restos mortais. No caminho ao serviço (Ferrazópolis — Jabaquara), carregava suas migalhas no fundo da bolsa, estranguladas entre a sua marmita e alguém.

Sem velório e cerimônia, juntou em uma mão o que sobrou dela e caminhou rumo ao córrego do Piraporinha. Concluiu que hoje não choveria — não haveria enchente — aquilo que um dia foi ela, não voltaria com a correnteza cheia de outros restos mortais e os suores doloridos dos que transitam por ali.

Posicionou-se de costas a Nossa Senhora Aparecida — na borracharia do Seu Severino — que a tudo vê.

Encarou o rio morto e atirou as sobras do passado que um dia foi ela. Seguiu pela madrugada com velas acesas nos olhos — as chamas tremeluzentes que denunciam seu poder de morrer e nascer.

 Quem é a autora?

Sol Felix

Designer gráfico e atriz, ambos por formação. Costuma dançar até amanhecer. É também a mãe feliz do Tião que, logo mais, ilustrará seus textos. Sente-se livre para amar quem quiser e a morrer e renascer sempre que desejar.

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