Agouro

No começo, por medo, eu me calei.

Congelei na frente da anunciação daquilo que mais tememos. Nossos poucos direitos devastados.

Mas então, aquilo que prevíamos começou a acontecer ainda mais rápido e de forma mais pavorosa do que nos nossos pesadelos.

Quando tentei embarcar no ônibus para chegar ao trabalho, do qual seria dispensada devido meu gênero, fui esbofeteada. Debaixo de cusparadas, tive meus braços presos e movimentos podados enquanto meu marido, que reagia, era levado pela nova lei. Não consigo imaginar e não quero me lembrar dos vários relatos de tortura da Ditadura, pois faz sangrar minha alma imaginar o que ele terá que passar antes de finalmente o matarem. Mas não foi só o meu marido que foi levado. As crianças também foram recolhidas. Não para serem poupadas, pois de acordo com o pronunciamento raivoso do tinhoso, são todos frutos imundos de miscigenações e a sujeira física e mental deve ser higienizada. A nação irá começar do zero, nos moldes genocidas do novo menino mimado que odeia as mulheres e que ganhou um bastão para empurrar nosso mundo para lá e para cá. A seu bel prazer.

Hoje nos chamaram à rua, rasparam nossos cabelos e pêlos sob uma enxurrada de pancada. Quebraram meus dentes na guia da calçada porque tentei morder a mão que me alisava.

Nada mais me dói, pois, meu corpo tem morrido a cada coletivamente a feminicidio anunciado orgulhosamente nos indicadores do novo governo.

Às vezes eu acho que morri muito antes de tudo isso acontecer e que na verdade, essa realidade nada mais é do que o nosso purgatório.

Uma senhora, agarrada ao terço, tentava justificar que ela não era como nós, mas a estupraram nos forçando a fazer um coro assustado de pai-nosso.

Pai e não mãe.

Atiraram na testa dela quando se cansaram.

Também atiraram na minha irmã, porque ela se recusou a ser medida, catalogada feito gado.

Somos tantas que não hesitam em nos descartar. Somos tantas e é por isso que querem desesperadamente nos apagar.

Acharam um vídeo da minha amiga militando e deceparam sua língua.

Fomos separadas e em rebanho apático e assustado, fomos enviadas à um ‘novo proposito’. Estamos nuas, famintas, assustadas e empilhadas em caminhões de transporte de carga viva. Nossos olhos rodopiam convulsivos acompanhando o asfalto sendo cruzado.

Eu passo o tempo afogada na incerteza sobre aqueles e aquelas que amei e que lutaram e gritaram comigo.

Eu não vivo mais. Não há mais vida à quem é oposição ao desumano.

Quando nos descarregaram no centro de seleção, vejo a M. sendo apedrejada aos berros por um grupo de guardas. M. trabalhava comigo e costumava apoiar o novo eleito. Apesar de se intitular parda, ela era favorável a ideia de que pessoas que não se enquadrassem ao padrão tradicional estético e comportamental proposto pelo novo governo deveriam ser eliminadas. M. estava grávida e quando todas fomos depostas dos nossos trabalhos ela se viu com um recém-nascido pendurado feito pingente em seus seios lactantes e sem provisões para se sustentar ou sustentar sua prole. O filho dela foi levado junto com as outras crianças. Agora ela grita porque foi encaminhada para a fila de eliminação e não consegue entender porque está sendo tratada da mesma forma que nós. Me pergunto se ela se lembra de todas as vezes que tentei conversar com ela, de todas as vezes que nossas mentes divergiram tão drasticamente. Queria ter um pedaço qualquer de espelho agora para que ela pudesse se ver e me dissesse se ainda enxerga em suas rugas faciais os resquícios da sua falta de humanidade que nos trouxe até aqui.

Eu também vou ser levada para a fila de eliminação. Poucas serão selecionadas como novas reprodutoras e essas ainda terão uma longa sobrevida de sofrimentos e abusos.

Entre gritos e empurrões, me vejo alinhada com moças que seguram suas barrigas com desespero. Minha barriga quase não existe ainda e por um minuto ou dois quase me prendo numa ilusão de como eu seria se completasse a gestação que ainda está tão inicial.

Nossos braços e pernas serão presos em correntes chumbadas no teto e no chão, de forma a nos deixar esticadas, sem movimentos. Um velho trôpego e de pele amarelada, com as roupas já escurecidas de sangue coagulado irá se aproximar de nós com uma faca. Faca e não bisturi, afinal, somos animais.

Todos nossos fetos serão arrancados dos talhos deferidos em nossos ventres. Sem anestesia, sem uma explicação. Aquelas que não perderem a consciência por medo ou por dor, serão amontoadas em uma vala cavada ao fundo da instalação. Nossos corpos serão queimados ao fim do dia e a pira fúnebre será transmitida na única rede de jornalismo autorizada a permanecer ativa. Será que a pessoa encarregada da edição já pensou em colocar o rosto do tinhoso nas labaredas das nossas mortes? Será que aqueles que o escolherem por serem pró vida conseguem enxergar a ironia bestial há que todos fomos sentenciados?

Esfrego os olhos com urgência porque quero despertar desse inferno e retornar ao passado. Quero mudar o destino das mãos fascistas e opressoras que nos sentenciaram essa morte cíclica, selvagem, brutalizada.

Quero que essas mãos, ao invés de vômitos, perpetuem uma nova chance à humanidade. Que invés de números ditados, elas escrevam um futuro em que ELE NÃO e NUNCA possa nos apagar.

Um futuro que não seja a estupidez e atrocidade de repetir os erros do passado.

Uma mão violenta agarra meu pulso e estica meus braços a força, me prendendo nas correntes. É chegado o momento de que meu corpo aprisionado seja desvinculado da minha alma livre.

Viro meu rosto para a mulher aprisionada ao meu lado e apesar de imaginar que meu rosto desfigurado lhe seja assustador, peço que ela olhe nos meus olhos. Eles não merecem nossa dor e eles não terão o sabor da nossa exterminação. Quero que ela encontre nos meus olhos a esperança de que renasceremos, de que juntas assombraremos os canalhas fascistas que nos assassinam. Nós retornaremos e não nos calaremos e ELE NÃO e NUNCA achará paz.

 

Beatrix Gussonato Gabrielli

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