“De dorso curvado pela lassidão do tempo, semblante marcado pelo medo da morte. Assevero seu padecimento doloroso na víscera abdominal direita que rouba tua braveza e deleite pela vida. Me pergunto alarmada, quando venceremos a morte?

Nessa hora minha própria existência está em questão. Penso nas escapatórias ao magnetismo letal da Senhora do Além, mas pouco vem para abater meu desespero. Vejo nos seus olhos o apagamento dos últimos sopros do agonizante que caminha rumo ao indecifrável destino.
O que eu devo esperar quando a morte vir lhe abraçar?

Aquilo que ficar de lembrança de ti que se irá quando também eu partir.”

Quem é a autora?

Glória Branco

Jornalista, documentarista e há alguns anos uma escritora entre quatro paredes. Há cerca de dois anos decidiu romper com o silêncio e revelar suas linhas escritas tão apaixonadamente.  Mantém um blog no Medium (@globranco) onde publica seus poemas e contos, normalmente, eróticos.Também da aulas de redação e tem uma agência de copywriter, a E-Books Gloriosos.

Rastros pelo caminho

Baratas, escuro, agulhas. Eu tinha medo de andar de carro.  A cada curva, ou fechada, o tempo parava. Voltava a correr só quando verificava que não era chegada a hora de morrer. Novamente respirava oxigênio.

Viajar para Ubatuba era uma tormenta. Vislumbrava o carro trespassando o guarde-reio em todas as sinuosidades. Parei de participar dos rodízios na direção. Ninguém me aguentava dirigindo tão devagar, mas não conseguia evitar. Me via estatelada no chão a cada ziguezague.

Novos Baianos saía gritado pelas caixas de som do Ford Ka alugado. Havia aumentado o som há poucos minutos. O farol alto do carro era tudo que iluminava a estrada à nossa frente. Anoitecera há pouco e o marinho no céu que surgia apresentava as últimas nuances alaranjadas.

– Não quero subir por lá! – protestei mais cedo.

– Rafa, para de frescura. Todo mundo fala que a paisagem é incrível.

Podíamos voltar de Laguna pela BR-101, mesmo caminho que fizemos vindo de Lages, mas o pessoal queria novidade. Subir pela Serra do Rio do Rastro, em meio a Mata Atlântica catarinense. O lugar parecia bonito pelas fotos, mas era 01 de Janeiro e quase 16h da tarde. Se pegássemos o menor trânsito faríamos o recurvado trecho no escuro. Dava arrepio só de imaginar.

– Rafaela, é das estradas mais bonitas do mundo.

Democracia não dá espaço para preferências ou medos pessoais. Foram três votos contra um. Perdi. Fui no banco da trás, agarrada ao encosto da frente, respirando profundamente e rezando para todos os santos e orixás que conhecia mas duvidava que existiam.

As pessoas que abriram essa estrada no passado se preocuparam pouco com os ângulos. Parecia que enquanto cerziam o caminho, a máquina de costura emperrou e a linha pregou mais vezes do que devia no mesmo pedaço de tecido. A rota tinha mais cotovelos que Shiva. Mas era impossível negar, o caminho era de um verde deslumbrante. Os pássaros cantavam diferente ali, ecoavam liberdade.

Ao alcançarmos o mirante no topo da Serra, descemos. O sol lançava seus últimos suspiros antes de mergulhar no mar de montanhas. A estrada descia de onde estávamos até a costa, como um rio cortando a serra. Rastro de asfalto.

– E aí, valeu a pena o frio na barriga? – perguntou Pedro, colocando o braço em volta da minha cintura. Abracei-o de volta, enquanto permanecíamos olhando a paisagem, até o último raio dar lugar às primeiras estrelas.

Voltamos ao Ka e seguimos rumo ao aeroporto pela estrada agora retilínea. Sentei-me na frente. Abrimos mais os vidros para curtir o vento, e os últimos minutos de atmosfera silenciosa, onde o volume do som era alto por gosto à música e não para disfarçar o ruído externo. Logo voltaríamos para São Paulo, o caos da rotina, e o céu e chão cinzento.

Aumentei mais ainda o som.

E se você fecha o olho a menina dança. Dentro da menina, ainda dança.

O farol do carro refletiu duas pequenas luzes. Bem miúdas, como jazidas. Olhos nos miravam fixamente. Um macaco bugio estava parado no meio da estrada. Pelugem marrom clara. Primeiro espécime que vi na vida.

João desviou o Ka paro lado e saímos da estrada. A roda dianteira enroscou em alguma coisa. Derrapamos. Quando o carro começou a capotar, Baby do Brasil cantava.

Quando cheguei tudo, tudo estava virado. E a gente virava.

Tudo, tudo estava virado. Três, quatro viradas. E a guitarra do Pepeu comendo solta.

Apenas viro, me viro, mas eu mesma viro os olhinhos. Parou na sexta virada e meia. O capô amassado me prendia à lataria. Senti meu corpo esquentar. O cinto apertar. Não quis olhar. O quente poderia ser a adrenalina, suor, ou sangue. Ou tudo. Ninguém falou nada, além da Baby. Os pássaros lá fora ecoavam outra coisa agora. Nos preparavam para outro silêncio.

Besta é tu. Besta é tu. Não viver este mundo, se não há outro mundo.


 

Quem é a autora?

Ana Squilanti

Coordenadora do Clube da Escrita, a paulista que puxa o R escreve sobre personagens possíveis. Vê na rotina sua poesia.

Veios

fragmentos de outono
compõem outros tempos
feitos de seda e papel
incendeiam nas dobras
rasgam-se frágeis

a aurora desmancha
mais cedo
o peso dos pesadelos

na memória fina do peito
flutuam os nós e os nãos
engasgam-se
em versos estreitos

na transparência
do verbo Ser
a vida imprime ranhuras
fios e veios
rendas e rugas
desenha velhas dúvidas…
não tece certeza alguma

Quem é a autora?

Orleide Ferreira

Paulistana, 52 anos , artesã e professora de joalheria em seu atelier. Seu elemento,  o fogo sagitariano , é o mesmo que solda metais e metáforas, forja fagulhas em versos , funde pratas, pedras e palavras no mesmo cadinho alquímico da imaginação e transforma tudo em adorno e poesia.

Ainda hoje

A gente perde as palavras
quando vê
que a morte
e o medo
são os meios

Os projéteis
enfiam na pele
Impedem a voz
destroem o corpo
perfuram os órgãos
a carne
a vida

Cada um deles
tenta
fazer desaparecer
a presença
de quem
respirava ontem

A morte
está vestida
com roupa de gala
coberta com farda
feita com as fibras
do poder

O silêncio não é quietude
nem sossego
é imposto com balas
facas
sumiços
dor
qualquer dor

Não há calmaria
a esperança
é o alvo

Quem é a autora?

Thaís Campolina

Tem 28 anos, um diploma em Direito, casos para contar e histórias para criar. É escritora, ativista, amante dos livros e apaixonada pela luta pelos direitos humanos. Administra os blogs e as páginas Ativismo de Sofá e Mulheres Notáveis, além de ser uma das organizadoras da Virada Feminista Online. No Medium, colabora com as publicações Mulheres que Escrevem, Revista Subjetiva, TRENDR e Fale Com Elas.

A mulher que foi

Morreu. Não sabe bem como foi.

Cortou os pulsos. Tomou veneno. Foi abaixo. Se jogou do alto. Soterrou. Terminou o namoro. Pedacinhos pelos trilhos do metrô, corpo jogado na linha do trólebus, na vala, na estrada.

“Muito bem” — pensou — “não sobrevivi”. Nos últimos instantes daquela que “já era”, não enxergou luz no fim do túnel, mas ouviu bem a voz grave que sussurrava firme: “morre desgraçada!”. Ela mesma falou para si.

Passou o final de semana consigo falecida.

Segunda-feira chegou e foi preciso juntar os próprios restos mortais. No caminho ao serviço (Ferrazópolis — Jabaquara), carregava suas migalhas no fundo da bolsa, estranguladas entre a sua marmita e alguém.

Sem velório e cerimônia, juntou em uma mão o que sobrou dela e caminhou rumo ao córrego do Piraporinha. Concluiu que hoje não choveria — não haveria enchente — aquilo que um dia foi ela, não voltaria com a correnteza cheia de outros restos mortais e os suores doloridos dos que transitam por ali.

Posicionou-se de costas a Nossa Senhora Aparecida — na borracharia do Seu Severino — que a tudo vê.

Encarou o rio morto e atirou as sobras do passado que um dia foi ela. Seguiu pela madrugada com velas acesas nos olhos — as chamas tremeluzentes que denunciam seu poder de morrer e nascer.

 Quem é a autora?

Sol Felix

Designer gráfico e atriz, ambos por formação. Costuma dançar até amanhecer. É também a mãe feliz do Tião que, logo mais, ilustrará seus textos. Sente-se livre para amar quem quiser e a morrer e renascer sempre que desejar.

Para ver Paulinho passar

Suspensa a pausa de mil compassos

“Para onde os dias passam?”

 

Não, que não haja tensão em absoluto com um dos deuses mais lindos

Que eu passe cheia de graça, asas de borboleta

escrava de toda beleza, feito porta-bandeira

Ó pássaro de natureza vaga, livrai-me do amargor de seus dentes de chumbo

Dancemos, pois (danço eu, dança você…)

 

I. Dos sentimentos que não enganam

 

no centro do nada

o peso da pedra

 

II. Das ações impossíveis

 

Voltar – é estar de novo

num novo lugar

Movimento circular e reverso

entre o eu e o regresso

O tempo é outro

(meu tempo é hoje – eu sou assim)

Não há retorno

– uma passagem –

é sempre só de ida

lunar

 

III. Da maturação lenta que transforma em diamantes

 

(des) peço

Desnuda e oblíqua

(de) canto em silêncio

na morada da lua

feito caranguejos lentos

que só se olham em conchas

nos anos bissextos

 

Vidraçaria Infinito

Nada ofende mais do que sobreviver a naufrágios

 

Quem é a autora?

Márcia Fráguas ou Márcia Cris Effe

Geminiana com ascendente em gêmeos, ou seja, é o duplo de si mesma e já foi muitas pessoas nessa vida. Atualmente é poeta em processo, faz mestrado em literatura brasileira na USP, em busca das relações entre poesia e música popular. Gosta de café preto sem açúcar e canções de Paulinho da Viola. Acredita que a estrada começa onde cessa o sorriso com dentes de chumbo.

Margem

Tenho um rio dentro de mim. Um rio bravo, que insiste em derrubar palafitas –últimas resistências de estruturas emocionais nesse peito cansado de caminhar. Levei a vida a construir barragens. Cada medo, cada autoproteção, cada afirmação mentirosa para mim mesma, serviu para construir uma estrutura forte para esses desejos.

Então veio você e tirou uma pedrinha. Eu disse, eu me disse um sem-número de vezes que você não ia tirar mais do que pequenos pedaços de concreto. Talvez alguma água escorresse, uns respingos escapassem, mas ainda estaria tudo sob controle. Mas não. Você veio, tirou meia dúzia de pedras e já derrubou aquela barragem que levei anos para construir. A água escapou de uma vez, molhou tudo, saiu destruindo as certezas, submergindo as cautelas, me deixando sem chão.

Agora, como lidar com essa vida alagada? Como não te ensopar com a intensidade do meu medo? Como achar um barco para te colocar em segurança, para não te embeber dos meus desesperos? Não quero te colocar à margem, observando sem perigos essa inundação, mas também não quero que minha corredeira te assuste, não quero que você desista por medo de se afogar. Não quero que você vá embora.

Só quero que você me nade
Quem é a autora?

Marília Teddy

Paulistana com raízes nordestinas, tem 29 anos, é educadora, escritora, canceriana, sincera adoradora de gatos e entusiasta dos memes. É autora da Fanchine, uma zine de literatura sobre o amor entre mulheres, na qual este texto foi publicado.

Extremos

os extremos
opostos
que se cuidem

buscam tanto
se afastar
um do outro
que se esquecem
da mais básica lição:

o mundo
é redondo.

de tanto fugir
logo darão as mão.

ceia

na mesa larga e cheia
a cena
mais pintada
em todas as memórias

a superfície
dos pratos
e dos semblantes
quase vazios

repetidas fotografias
e falas

o milagre dos bons modos
e dos movimentos previsíveis
coreografados

falar da fome te estragaria o apetite?

do oco invisível
que sustenta a matéria humana
ninguém se pergunta?

fujo do roteiro
desobedeço e boto novas cartas nessa mesa

embrulho teu estômago
pra viagem
e dou pra alguém comer no caminho

Quem é a autora?

Janaína Moitinho

Educadora e aprendiz, poeta, dos saraus, dos slams, paulista de alma mineira; acredita que poesia se faz e vive além das linhas e agradece os encontros, de páginas e caminhos. Publicações: zine “fôlego” (2016) e o livreto “pedaços” (2017)

As Amigas da Casa do Sol

A amigas da Casa do Sol Amarelo

Onde estivessem não importava o tempo

O ponteiro do relógio parava

no consciente do inconsciente

não importava os olhares dos transeuntes

o barulho do transito da avenida movimentada

cada ocasião era mais que especial

tinha um toque de mágica era inusitada

as namoradinhas estavam ali

ao seu lado, parecia evidente a felicidade excitante

estampada no rosto com sorriso

e um tom de cumplicidade

seria a primeira vez que tivera duas namoradinhas?

ou melhor duas garotas interessada?

as namoradinhas pareciam duas adolescentes ao seu lado

apaixonadas compartilhavam da mesma amizade

no metro sempre em direção a um ato

de manifestação feminista contra a hipocrisia e opressão machista

o par de olhos grandes transparentes cristalinos

parecia expressar sentimentos tão profundos

certa ocasião pingos grandes e fortes de chuva

atravessavam a echarpe que segurava com as mãos

nos braços abertos para proteger a amiga

andavam apressadamente para fugir do tilintar da água e ao mesmo tempo

aquela echarpe voava entre a chuva espaçada que caia do céu azul

e o reflexo do sol dourado naquele fim de tarde

na salinha haviam pausas concentradas para leitura de textos teóricos,

cartas de amor e de amizade eram momentos de dupla concentração

para quem lia e quem escutava atentamente

foram momentos no tempo de encontros

e desencontros, descobertas poéticas, afeto e afinidades

no meio das flores foram histórias das amigas na Casa do Sol

que tiveram o prazer de compartilhar a amizade

com ternura e cumplicidade

Quem é a autora?

Fátima Freitas

Paulista, Assistente Social, militante do movimento feminista e autora do livro de poesias As amigas da Casa do Sol, publicado em 2016. Participou da Antologia Poética Senhoras Obscenas, em 2016.

História real sobre as baratas

Querida,

Meses foram embora e eu não sei explicar a dimensão da minha saudade. Anotei algumas frases na minha agenda em alguns dias desses muitos meses com a intenção de saber escrever uma carta bem completa para você. Mas, ao ler cada uma, vi que tudo estava desconexo. Você não me entenderia.

Vou contar apenas sobre o acontecimento do banheiro.

Você foi embora em uma segunda-feira. Estávamos há uma semana separados, mas juntos. Primeiro me fez chorar vertiginosamente, sem qualquer apelo que te comovesse. Algumas horas depois, o desamor te abateu e quem chorou foi você. Soluçante e infantil.

Resisti muito, jurei que não te abraçaria. Mas abracei. E passamos uma semana inteira de abraços de despedida para todo o sempre. Porque era certo que jamais voltaríamos. Não como namorados.

Você pôs sua enorme mala no bagageiro do táxi e foi embora, mas se arrependeu de me deixar tão aflito, deu a volta no quarteirão e me buscou. No aeroporto, nossa, como você foi fria. Não me olhou nem uma única vez. E não me deixou abrir a revista que comprou por pura pirraça. Nossa, querida, nossa.

A volta foi um prédio implodido dentro de mim. Desabei no meu colchão e vi a poeira dos meus entulhos levantar e desativar a minha felicidade. Como se eu fosse imune a qualquer coisa boa dali para frente. Então, quando o quarto ficou menos turvo, vi que não estava sozinho. Uma barata meio loira me olhava toda atrevida. Igual a você nas manhãs que chegava em casa depois de 14 dias sem me ver.

A barata fazia um barulho. Eu conseguia ouvir as patinhas dela tilintando no assoalho. E ficamos nós dois no quarto, eu na minha confusão de você, ela com a casca dourada passando para lá e para cá.

Recuperei-me da sua travessura de me amar, me conter, me desalmar e me enlouquecer e parti para a vida. Viajei, fiz um monte de coisa. Mas, toda vez que eu voltava era a mesma sensação de que ouviria sua voz da cozinha, ou da área de serviço, quando você inventava de lavar minhas cuecas. Eu sempre achava que você sairia do banho pingando tudo, ou que estaria tirando uma soneca no frio de Sampa que tanto te abatia, uma capixaba dada só ao sol.

Essas voltas para casa eram uma solidão. Só o que eu tinha de você era o meu armário completamente cheio das suas roupas, e nenhuma minha, pois abri espaço para você em tudo na minha vida. E, claro, os seus fios enrolados. Esses fios que se espalharam por exatamente todos os cômodos da casa. Você sempre deixou seus fragmentos pelos cantos dos cantos dos corredores nos quartos nos vidros das janelas nas estantes e nos meus tênis, enroscados nos cadarços, e nos botões dos meus casacos naquelas vezes de fila que você encostou a cabeça no meu peito, todas aquelas vezes e mais algumas.

Você é muito geminiana e muito possessiva, mas entendo, é porque me amava muito. E entendo que seu corpo soltasse teu cabelo pela casa para marcar território, para marcar a minha vida e não me deixar te esquecer. Nem a porta da geladeira escapou. Nem a boca do fogão. Nossa, querida.

Aí, toda vez que eu sentava no sofá e pensava “não sei dela, não tenho notícias, que saudade”, uma baratinha loirinha aparecia. Vinha remexendo a traseira – igual a você andando – e fazia aquele barulho das patinhas e também das antenas.

Essa cena se repetiu por meses. Algumas eram adultas, outras eram filhotes. Muitas e muitas baratas. A maioria eu matava, as outras eu deixava ir embora. A sensação que eu tinha é que elas estavam ali por sua ordem, como espiãs inspecionando a minha decepção e, ao mesmo tempo, me fazendo companhia nessa casa tão vazia.

E como tudo que vem de você é um exagero, essa demanda de baratas também foi. E, assim, chamei uma empresa especializada em matar baratas. Depois de averiguar de onde elas vinham, veio o veredito: as baratas não eram dezenas como eu imaginava. Eram centenas. Elas estavam em um fundo oco do banheiro bem abaixo do ralo do chuveiro, em um subsolo que não deveria existir, que deveria ser preenchido de concreto.

Ali estava a cidade das baratas. Era de lá que elas partiam em minha busca, todo dia uma corajosa casca dura arriscava a vida para cumprir os desejos de sua mentora: Você, querida, você.

A empresa jogou veneno e esperou a morte das pequenas e companheiras intrusas. Esperei para ver o resultado, o extermínio absoluto da nossa história. O homem de luvas saiu tirando as defuntas, puxando as nojeiras do ralo oco até que me mostrou o abuso que você, querida, me deixou: quilos do seu cabelo enrolado, quilos e quilos do seu cabelo enrolado, formando a estrutura das baratas, servindo de cama, de ninho, de ambiente, alimentando as crias, aquecendo as cascudas já velhas. Aquele cabelo todo, nossa.

Querida, gostaria de ser seu amigo. De maneira que não chorássemos e não nos despedaçássemos nos braços um do outro.

Te amo, seu querido.

Quem é a autora?

Dani Costa Russo 

Coordenadora de conteúdo do Clube da Escrita para Mulheres, autora do romance “Beijos no Chão”. O conto “História real sobre as baratas” foi escolhido para compor a edição especial em brochura do concurso literário #SweekStars de 2017.