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Decênio

Anna Clara de Vitto

há dez anos
que o meu braço esquerdo
queima

dez anos
e na verdade
eu não me lembro
qual o braço

mas não esqueço:

dez anos
que alfabetizados
meus ouvidos
na tua língua odienta

afasta de mim
essa saliva
infecta

que desfecho:
você disse
que de mim
nada sobraria

nada

nem fresta
nem traço

(larga do meu braço moço
eu peço
e peço
e peço
e me despedaço)

nem fração

dez anos
que ando
sobrando
escorrendo
pelos dedos
pegajosos
das ruas
de miasmas
masculinos

de mim sobrou
quase tudo
menos
o medo.