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#EleNão

#EleNão

I
Não nasci menor porque tenho vagina,
porque sou preta, filha de nordestina.

Na minha pele e no meu sangue carrego
ancestralidade que me faz bater no peito
e dizer com gosto e coragem:

Ele, NÃO!

II
Minha arma é a educação que carrego,
e a paz pela qual luto.
Minha arma é diversa, por certo,
com certeza, não é grito mudo.

Ela extravasa e com ela me empodero,
me solidarizo e com ela ganho voz.
Seguindo unida a outras mulheres contra esse algoz,
nossas vozes juntas se rebelam:
Ele, NÃO!

 

Fernanda Rodrigues

Por que ele não?

Por que ele não?

Como viver em um mundo mergulhado no ódio?
Como não se afogar e sobreviver?
Como resistir?

Como conviver com pessoas,
que por ignorância ou falta de caráter,
legitimam esse mar de ódio

Como viver e criar um filho?
Que futuro sombrio bate à nossa porta?

Como conviver com pessoas próximas,
que desejam abrir as compotas
dessa barragem
Uma caixa de Pandora
encontrada no fundo de um oceano,
que parecia tranquilo

Como viver e respirar?
Ou não respirar e se afogar?
Se afogar não é opção!

Como conviver e sobreviver?
Lutemos pois por águas calmas, cristalinas
Por um futuro próximo
No qual possamos respirar
E criar nossos filhos
Para que outros ditadores mal-acabados
não se arvorem a agitar as águas,
elevar o nível do mar,
inundando de ódio
nosso planeta Terra,
nosso país,
nosso habitat,
nossa casa!
Ele não!

 

Vilma Gama

Poetisa anarquista  -cidadã do mundo –
navega de Manoel de Barros a Maiakóvski –
de Cora Coralina a Cecília Meireles.

“De dorso curvado pela lassidão do tempo, semblante marcado pelo medo da morte. Assevero seu padecimento doloroso na víscera abdominal direita que rouba tua braveza e deleite pela vida. Me pergunto alarmada, quando venceremos a morte?

Nessa hora minha própria existência está em questão. Penso nas escapatórias ao magnetismo letal da Senhora do Além, mas pouco vem para abater meu desespero. Vejo nos seus olhos o apagamento dos últimos sopros do agonizante que caminha rumo ao indecifrável destino.
O que eu devo esperar quando a morte vir lhe abraçar?

Aquilo que ficar de lembrança de ti que se irá quando também eu partir.”

Quem é a autora?

Glória Branco

Jornalista, documentarista e há alguns anos uma escritora entre quatro paredes. Há cerca de dois anos decidiu romper com o silêncio e revelar suas linhas escritas tão apaixonadamente.  Mantém um blog no Medium (@globranco) onde publica seus poemas e contos, normalmente, eróticos.Também da aulas de redação e tem uma agência de copywriter, a E-Books Gloriosos.

Rastros pelo caminho

Baratas, escuro, agulhas. Eu tinha medo de andar de carro.  A cada curva, ou fechada, o tempo parava. Voltava a correr só quando verificava que não era chegada a hora de morrer. Novamente respirava oxigênio.

Viajar para Ubatuba era uma tormenta. Vislumbrava o carro trespassando o guarde-reio em todas as sinuosidades. Parei de participar dos rodízios na direção. Ninguém me aguentava dirigindo tão devagar, mas não conseguia evitar. Me via estatelada no chão a cada ziguezague.

Novos Baianos saía gritado pelas caixas de som do Ford Ka alugado. Havia aumentado o som há poucos minutos. O farol alto do carro era tudo que iluminava a estrada à nossa frente. Anoitecera há pouco e o marinho no céu que surgia apresentava as últimas nuances alaranjadas.

– Não quero subir por lá! – protestei mais cedo.

– Rafa, para de frescura. Todo mundo fala que a paisagem é incrível.

Podíamos voltar de Laguna pela BR-101, mesmo caminho que fizemos vindo de Lages, mas o pessoal queria novidade. Subir pela Serra do Rio do Rastro, em meio a Mata Atlântica catarinense. O lugar parecia bonito pelas fotos, mas era 01 de Janeiro e quase 16h da tarde. Se pegássemos o menor trânsito faríamos o recurvado trecho no escuro. Dava arrepio só de imaginar.

– Rafaela, é das estradas mais bonitas do mundo.

Democracia não dá espaço para preferências ou medos pessoais. Foram três votos contra um. Perdi. Fui no banco da trás, agarrada ao encosto da frente, respirando profundamente e rezando para todos os santos e orixás que conhecia mas duvidava que existiam.

As pessoas que abriram essa estrada no passado se preocuparam pouco com os ângulos. Parecia que enquanto cerziam o caminho, a máquina de costura emperrou e a linha pregou mais vezes do que devia no mesmo pedaço de tecido. A rota tinha mais cotovelos que Shiva. Mas era impossível negar, o caminho era de um verde deslumbrante. Os pássaros cantavam diferente ali, ecoavam liberdade.

Ao alcançarmos o mirante no topo da Serra, descemos. O sol lançava seus últimos suspiros antes de mergulhar no mar de montanhas. A estrada descia de onde estávamos até a costa, como um rio cortando a serra. Rastro de asfalto.

– E aí, valeu a pena o frio na barriga? – perguntou Pedro, colocando o braço em volta da minha cintura. Abracei-o de volta, enquanto permanecíamos olhando a paisagem, até o último raio dar lugar às primeiras estrelas.

Voltamos ao Ka e seguimos rumo ao aeroporto pela estrada agora retilínea. Sentei-me na frente. Abrimos mais os vidros para curtir o vento, e os últimos minutos de atmosfera silenciosa, onde o volume do som era alto por gosto à música e não para disfarçar o ruído externo. Logo voltaríamos para São Paulo, o caos da rotina, e o céu e chão cinzento.

Aumentei mais ainda o som.

E se você fecha o olho a menina dança. Dentro da menina, ainda dança.

O farol do carro refletiu duas pequenas luzes. Bem miúdas, como jazidas. Olhos nos miravam fixamente. Um macaco bugio estava parado no meio da estrada. Pelugem marrom clara. Primeiro espécime que vi na vida.

João desviou o Ka paro lado e saímos da estrada. A roda dianteira enroscou em alguma coisa. Derrapamos. Quando o carro começou a capotar, Baby do Brasil cantava.

Quando cheguei tudo, tudo estava virado. E a gente virava.

Tudo, tudo estava virado. Três, quatro viradas. E a guitarra do Pepeu comendo solta.

Apenas viro, me viro, mas eu mesma viro os olhinhos. Parou na sexta virada e meia. O capô amassado me prendia à lataria. Senti meu corpo esquentar. O cinto apertar. Não quis olhar. O quente poderia ser a adrenalina, suor, ou sangue. Ou tudo. Ninguém falou nada, além da Baby. Os pássaros lá fora ecoavam outra coisa agora. Nos preparavam para outro silêncio.

Besta é tu. Besta é tu. Não viver este mundo, se não há outro mundo.


 

Quem é a autora?

Ana Squilanti

Coordenadora do Clube da Escrita, a paulista que puxa o R escreve sobre personagens possíveis. Vê na rotina sua poesia.

Veios

fragmentos de outono
compõem outros tempos
feitos de seda e papel
incendeiam nas dobras
rasgam-se frágeis

a aurora desmancha
mais cedo
o peso dos pesadelos

na memória fina do peito
flutuam os nós e os nãos
engasgam-se
em versos estreitos

na transparência
do verbo Ser
a vida imprime ranhuras
fios e veios
rendas e rugas
desenha velhas dúvidas…
não tece certeza alguma

Quem é a autora?

Orleide Ferreira

Paulistana, 52 anos , artesã e professora de joalheria em seu atelier. Seu elemento,  o fogo sagitariano , é o mesmo que solda metais e metáforas, forja fagulhas em versos , funde pratas, pedras e palavras no mesmo cadinho alquímico da imaginação e transforma tudo em adorno e poesia.

Ainda hoje

A gente perde as palavras
quando vê
que a morte
e o medo
são os meios

Os projéteis
enfiam na pele
Impedem a voz
destroem o corpo
perfuram os órgãos
a carne
a vida

Cada um deles
tenta
fazer desaparecer
a presença
de quem
respirava ontem

A morte
está vestida
com roupa de gala
coberta com farda
feita com as fibras
do poder

O silêncio não é quietude
nem sossego
é imposto com balas
facas
sumiços
dor
qualquer dor

Não há calmaria
a esperança
é o alvo

Quem é a autora?

Thaís Campolina

Tem 28 anos, um diploma em Direito, casos para contar e histórias para criar. É escritora, ativista, amante dos livros e apaixonada pela luta pelos direitos humanos. Administra os blogs e as páginas Ativismo de Sofá e Mulheres Notáveis, além de ser uma das organizadoras da Virada Feminista Online. No Medium, colabora com as publicações Mulheres que Escrevem, Revista Subjetiva, TRENDR e Fale Com Elas.

A mulher que foi

Morreu. Não sabe bem como foi.

Cortou os pulsos. Tomou veneno. Foi abaixo. Se jogou do alto. Soterrou. Terminou o namoro. Pedacinhos pelos trilhos do metrô, corpo jogado na linha do trólebus, na vala, na estrada.

“Muito bem” — pensou — “não sobrevivi”. Nos últimos instantes daquela que “já era”, não enxergou luz no fim do túnel, mas ouviu bem a voz grave que sussurrava firme: “morre desgraçada!”. Ela mesma falou para si.

Passou o final de semana consigo falecida.

Segunda-feira chegou e foi preciso juntar os próprios restos mortais. No caminho ao serviço (Ferrazópolis — Jabaquara), carregava suas migalhas no fundo da bolsa, estranguladas entre a sua marmita e alguém.

Sem velório e cerimônia, juntou em uma mão o que sobrou dela e caminhou rumo ao córrego do Piraporinha. Concluiu que hoje não choveria — não haveria enchente — aquilo que um dia foi ela, não voltaria com a correnteza cheia de outros restos mortais e os suores doloridos dos que transitam por ali.

Posicionou-se de costas a Nossa Senhora Aparecida — na borracharia do Seu Severino — que a tudo vê.

Encarou o rio morto e atirou as sobras do passado que um dia foi ela. Seguiu pela madrugada com velas acesas nos olhos — as chamas tremeluzentes que denunciam seu poder de morrer e nascer.

 Quem é a autora?

Sol Felix

Designer gráfico e atriz, ambos por formação. Costuma dançar até amanhecer. É também a mãe feliz do Tião que, logo mais, ilustrará seus textos. Sente-se livre para amar quem quiser e a morrer e renascer sempre que desejar.

Para ver Paulinho passar

Suspensa a pausa de mil compassos

“Para onde os dias passam?”

 

Não, que não haja tensão em absoluto com um dos deuses mais lindos

Que eu passe cheia de graça, asas de borboleta

escrava de toda beleza, feito porta-bandeira

Ó pássaro de natureza vaga, livrai-me do amargor de seus dentes de chumbo

Dancemos, pois (danço eu, dança você…)

 

I. Dos sentimentos que não enganam

 

no centro do nada

o peso da pedra

 

II. Das ações impossíveis

 

Voltar – é estar de novo

num novo lugar

Movimento circular e reverso

entre o eu e o regresso

O tempo é outro

(meu tempo é hoje – eu sou assim)

Não há retorno

– uma passagem –

é sempre só de ida

lunar

 

III. Da maturação lenta que transforma em diamantes

 

(des) peço

Desnuda e oblíqua

(de) canto em silêncio

na morada da lua

feito caranguejos lentos

que só se olham em conchas

nos anos bissextos

 

Vidraçaria Infinito

Nada ofende mais do que sobreviver a naufrágios

 

Quem é a autora?

Márcia Fráguas ou Márcia Cris Effe

Geminiana com ascendente em gêmeos, ou seja, é o duplo de si mesma e já foi muitas pessoas nessa vida. Atualmente é poeta em processo, faz mestrado em literatura brasileira na USP, em busca das relações entre poesia e música popular. Gosta de café preto sem açúcar e canções de Paulinho da Viola. Acredita que a estrada começa onde cessa o sorriso com dentes de chumbo.

Margem

Tenho um rio dentro de mim. Um rio bravo, que insiste em derrubar palafitas –últimas resistências de estruturas emocionais nesse peito cansado de caminhar. Levei a vida a construir barragens. Cada medo, cada autoproteção, cada afirmação mentirosa para mim mesma, serviu para construir uma estrutura forte para esses desejos.

Então veio você e tirou uma pedrinha. Eu disse, eu me disse um sem-número de vezes que você não ia tirar mais do que pequenos pedaços de concreto. Talvez alguma água escorresse, uns respingos escapassem, mas ainda estaria tudo sob controle. Mas não. Você veio, tirou meia dúzia de pedras e já derrubou aquela barragem que levei anos para construir. A água escapou de uma vez, molhou tudo, saiu destruindo as certezas, submergindo as cautelas, me deixando sem chão.

Agora, como lidar com essa vida alagada? Como não te ensopar com a intensidade do meu medo? Como achar um barco para te colocar em segurança, para não te embeber dos meus desesperos? Não quero te colocar à margem, observando sem perigos essa inundação, mas também não quero que minha corredeira te assuste, não quero que você desista por medo de se afogar. Não quero que você vá embora.

Só quero que você me nade
Quem é a autora?

Marília Teddy

Paulistana com raízes nordestinas, tem 29 anos, é educadora, escritora, canceriana, sincera adoradora de gatos e entusiasta dos memes. É autora da Fanchine, uma zine de literatura sobre o amor entre mulheres, na qual este texto foi publicado.

Extremos

os extremos
opostos
que se cuidem

buscam tanto
se afastar
um do outro
que se esquecem
da mais básica lição:

o mundo
é redondo.

de tanto fugir
logo darão as mão.

ceia

na mesa larga e cheia
a cena
mais pintada
em todas as memórias

a superfície
dos pratos
e dos semblantes
quase vazios

repetidas fotografias
e falas

o milagre dos bons modos
e dos movimentos previsíveis
coreografados

falar da fome te estragaria o apetite?

do oco invisível
que sustenta a matéria humana
ninguém se pergunta?

fujo do roteiro
desobedeço e boto novas cartas nessa mesa

embrulho teu estômago
pra viagem
e dou pra alguém comer no caminho

Quem é a autora?

Janaína Moitinho

Educadora e aprendiz, poeta, dos saraus, dos slams, paulista de alma mineira; acredita que poesia se faz e vive além das linhas e agradece os encontros, de páginas e caminhos. Publicações: zine “fôlego” (2016) e o livreto “pedaços” (2017)