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As Amigas da Casa do Sol

A amigas da Casa do Sol Amarelo

Onde estivessem não importava o tempo

O ponteiro do relógio parava

no consciente do inconsciente

não importava os olhares dos transeuntes

o barulho do transito da avenida movimentada

cada ocasião era mais que especial

tinha um toque de mágica era inusitada

as namoradinhas estavam ali

ao seu lado, parecia evidente a felicidade excitante

estampada no rosto com sorriso

e um tom de cumplicidade

seria a primeira vez que tivera duas namoradinhas?

ou melhor duas garotas interessada?

as namoradinhas pareciam duas adolescentes ao seu lado

apaixonadas compartilhavam da mesma amizade

no metro sempre em direção a um ato

de manifestação feminista contra a hipocrisia e opressão machista

o par de olhos grandes transparentes cristalinos

parecia expressar sentimentos tão profundos

certa ocasião pingos grandes e fortes de chuva

atravessavam a echarpe que segurava com as mãos

nos braços abertos para proteger a amiga

andavam apressadamente para fugir do tilintar da água e ao mesmo tempo

aquela echarpe voava entre a chuva espaçada que caia do céu azul

e o reflexo do sol dourado naquele fim de tarde

na salinha haviam pausas concentradas para leitura de textos teóricos,

cartas de amor e de amizade eram momentos de dupla concentração

para quem lia e quem escutava atentamente

foram momentos no tempo de encontros

e desencontros, descobertas poéticas, afeto e afinidades

no meio das flores foram histórias das amigas na Casa do Sol

que tiveram o prazer de compartilhar a amizade

com ternura e cumplicidade

Quem é a autora?

Fátima Freitas

Paulista, Assistente Social, militante do movimento feminista e autora do livro de poesias As amigas da Casa do Sol, publicado em 2016. Participou da Antologia Poética Senhoras Obscenas, em 2016.

História real sobre as baratas

Querida,

Meses foram embora e eu não sei explicar a dimensão da minha saudade. Anotei algumas frases na minha agenda em alguns dias desses muitos meses com a intenção de saber escrever uma carta bem completa para você. Mas, ao ler cada uma, vi que tudo estava desconexo. Você não me entenderia.

Vou contar apenas sobre o acontecimento do banheiro.

Você foi embora em uma segunda-feira. Estávamos há uma semana separados, mas juntos. Primeiro me fez chorar vertiginosamente, sem qualquer apelo que te comovesse. Algumas horas depois, o desamor te abateu e quem chorou foi você. Soluçante e infantil.

Resisti muito, jurei que não te abraçaria. Mas abracei. E passamos uma semana inteira de abraços de despedida para todo o sempre. Porque era certo que jamais voltaríamos. Não como namorados.

Você pôs sua enorme mala no bagageiro do táxi e foi embora, mas se arrependeu de me deixar tão aflito, deu a volta no quarteirão e me buscou. No aeroporto, nossa, como você foi fria. Não me olhou nem uma única vez. E não me deixou abrir a revista que comprou por pura pirraça. Nossa, querida, nossa.

A volta foi um prédio implodido dentro de mim. Desabei no meu colchão e vi a poeira dos meus entulhos levantar e desativar a minha felicidade. Como se eu fosse imune a qualquer coisa boa dali para frente. Então, quando o quarto ficou menos turvo, vi que não estava sozinho. Uma barata meio loira me olhava toda atrevida. Igual a você nas manhãs que chegava em casa depois de 14 dias sem me ver.

A barata fazia um barulho. Eu conseguia ouvir as patinhas dela tilintando no assoalho. E ficamos nós dois no quarto, eu na minha confusão de você, ela com a casca dourada passando para lá e para cá.

Recuperei-me da sua travessura de me amar, me conter, me desalmar e me enlouquecer e parti para a vida. Viajei, fiz um monte de coisa. Mas, toda vez que eu voltava era a mesma sensação de que ouviria sua voz da cozinha, ou da área de serviço, quando você inventava de lavar minhas cuecas. Eu sempre achava que você sairia do banho pingando tudo, ou que estaria tirando uma soneca no frio de Sampa que tanto te abatia, uma capixaba dada só ao sol.

Essas voltas para casa eram uma solidão. Só o que eu tinha de você era o meu armário completamente cheio das suas roupas, e nenhuma minha, pois abri espaço para você em tudo na minha vida. E, claro, os seus fios enrolados. Esses fios que se espalharam por exatamente todos os cômodos da casa. Você sempre deixou seus fragmentos pelos cantos dos cantos dos corredores nos quartos nos vidros das janelas nas estantes e nos meus tênis, enroscados nos cadarços, e nos botões dos meus casacos naquelas vezes de fila que você encostou a cabeça no meu peito, todas aquelas vezes e mais algumas.

Você é muito geminiana e muito possessiva, mas entendo, é porque me amava muito. E entendo que seu corpo soltasse teu cabelo pela casa para marcar território, para marcar a minha vida e não me deixar te esquecer. Nem a porta da geladeira escapou. Nem a boca do fogão. Nossa, querida.

Aí, toda vez que eu sentava no sofá e pensava “não sei dela, não tenho notícias, que saudade”, uma baratinha loirinha aparecia. Vinha remexendo a traseira – igual a você andando – e fazia aquele barulho das patinhas e também das antenas.

Essa cena se repetiu por meses. Algumas eram adultas, outras eram filhotes. Muitas e muitas baratas. A maioria eu matava, as outras eu deixava ir embora. A sensação que eu tinha é que elas estavam ali por sua ordem, como espiãs inspecionando a minha decepção e, ao mesmo tempo, me fazendo companhia nessa casa tão vazia.

E como tudo que vem de você é um exagero, essa demanda de baratas também foi. E, assim, chamei uma empresa especializada em matar baratas. Depois de averiguar de onde elas vinham, veio o veredito: as baratas não eram dezenas como eu imaginava. Eram centenas. Elas estavam em um fundo oco do banheiro bem abaixo do ralo do chuveiro, em um subsolo que não deveria existir, que deveria ser preenchido de concreto.

Ali estava a cidade das baratas. Era de lá que elas partiam em minha busca, todo dia uma corajosa casca dura arriscava a vida para cumprir os desejos de sua mentora: Você, querida, você.

A empresa jogou veneno e esperou a morte das pequenas e companheiras intrusas. Esperei para ver o resultado, o extermínio absoluto da nossa história. O homem de luvas saiu tirando as defuntas, puxando as nojeiras do ralo oco até que me mostrou o abuso que você, querida, me deixou: quilos do seu cabelo enrolado, quilos e quilos do seu cabelo enrolado, formando a estrutura das baratas, servindo de cama, de ninho, de ambiente, alimentando as crias, aquecendo as cascudas já velhas. Aquele cabelo todo, nossa.

Querida, gostaria de ser seu amigo. De maneira que não chorássemos e não nos despedaçássemos nos braços um do outro.

Te amo, seu querido.

Quem é a autora?

Dani Costa Russo 

Coordenadora de conteúdo do Clube da Escrita para Mulheres, autora do romance “Beijos no Chão”. O conto “História real sobre as baratas” foi escolhido para compor a edição especial em brochura do concurso literário #SweekStars de 2017.

Jacira

Preta. Gorda. Velha.
A primeira a levantar, a última a dormir. Quando dorme, já que tem noites que a menina chora.

Seus passos, lentos, pesarosos e dolorosos, são como os de um fantasma pela grande casa. Há anos aprendeu que deve ser invisível.

Menos quando a menina chora, quando precisam que ela resolva qualquer problema menor do cotidiano.

Suas roupas, seu cabelo e sua pele são sempre alho, cebola e gordura. Mesmo a noite, depois do banho, do cheiro breve de limpeza, o alho, a cebola e a gordura ainda estão lá. Sempre estão lá, como um sutil lembrete.

Quase não se lembra de nada de antes. Não saberia dizer se já teve sonhos ou desejos ou qualquer coisa sua, saída de sua própria cabeça.

A senhora foi a Igreja. Mais uma vez a menina ficou, a menina dócil de cabelo loiro e pele branca. Os filhos que Jacira não teve e nunca terá. Toda uma vida que não teve e nunca terá.

Sua existência resumida num poema romantizado sobre a doce serviçal. Continuar lendo Jacira

Decênio

Anna Clara de Vitto

há dez anos
que o meu braço esquerdo
queima

dez anos
e na verdade
eu não me lembro
qual o braço

mas não esqueço:

dez anos
que alfabetizados
meus ouvidos
na tua língua odienta

afasta de mim
essa saliva
infecta

que desfecho:
você disse
que de mim
nada sobraria

nada

nem fresta
nem traço

(larga do meu braço moço
eu peço
e peço
e peço
e me despedaço)

nem fração

dez anos
que ando
sobrando
escorrendo
pelos dedos
pegajosos
das ruas
de miasmas
masculinos

de mim sobrou
quase tudo
menos
o medo.