Entrevista com Dani Costa Russo, autora de Beijos no Chão

Dani Costa Russo é uma escritora de destaque na autopublicação. Caso de sucesso, seu primeiro romance está esgotado. Usando as redes sociais com maestria, Dani facilita oficinas e cursos de escrita e autopublicação para mulheres que também querem desenvolver mais autonomia e escolher o caminho da autopublicação. Atualmente, ela também é coordenadora do Clube da Escrita Para Mulheres e participa de eventos falando sobre questões complexas no mercado editorial e na literatura.

Com um discurso sempre certeiro, Dani nos conta, em entrevista, sobre sua trajetória e seu processo criativo. Leia:

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Jarid Arraes – Seu primeiro romance, Beijos no Chão, é bastante intenso, exige bastante de quem lê, por apresentar um universo de violência física e psicológica contra uma mulher. Muitos autores que escrevem contos são cobrados em entrevistas com perguntas como “quando você vai escrever um romance?”, como se os contos fossem uma espécie de treino para o romance. Levando em consideração o conteúdo de Beijos no Chão, não a forma, você acha que teve algum treino para essa história? Ou ela também exigiu de você uma relação de impacto tanto quanto exige de muitos leitores? 

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Dani Costa Russo – Acho um desafio escrever conto, afinal, como colocar em uma história curta tudo o que se quer contar sobre ela? Por isso, que audacioso considerarem um treino! Bem, mas eu não escrevi Beijos no Chão sem antes ‘treinar’, de fato. O primeiro capítulo eu fiz como apenas uma história – que eu não consideraria um conto – para um blog que eu tinha (em 2007 ou 2008), e que umas 10 pessoas acompanhavam. Esse púbico cativo achou intrigante, arrojado, fez comentários, fiquei surpresa. Eu não imaginava que aquela violação emocional e mental da personagem fosse algo que despertasse a atenção, que criasse curiosidade. E, como era meu lugar-comum, parecia banal escrever sobre tapas, berros e chutes, o que me leva a afirmar que não me doeu escrevê-la. Tudo o que a protagonista vive era algo que, na ocasião dessa escrita, ainda era recente na minha vida pessoal, e eu estava encarando de maneira dura, combativa.
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Eu sabia que não se falava sobre violência contra a mulher, eu sabia que era tabu, e não considerei que as pessoas tivessem interesse. Na cidade onde eu vivia, na minha bolha de amigos, o feminismo não era nunca dito. E publicar textos ou poesia em blog não era considerado literatura em hipótese alguma. Por tudo isso, quando escrevi muitas das coisas de Beijos no Chão no meu blog, foi pensando apenas em registrar partes da minha memória para que coisas importantes não se perdessem. Um dia, porém, me vi diante de um livro.
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JA – Beijos no Chão foi uma autopublicação e até então você se apresenta como uma autora independente. Como você avalia essa sua trajetória de independência? Seu livro físico está esgotado, afinal.
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Dani Costa Russo – Ser uma autora independente me fez uma mulher independente. Eu me livrei de muito lixo emocional, da sensação de rejeição como escritora, da dependência de fazer parte do sistema, obrigatoriamente, se quisesse publicar. Eu achava que não existia outra opção senão ser aceita por uma editora para me lançar na literatura. Quando descobri que havia outra maneira, sim, e que eu estava dentro do privilégio de poder colocá-la em prática, pois tinha emprego, salário, e conhecimento de redes sociais, tudo na minha vida mudou. Como independente, aprendi a valorizar o meu trabalho literário, e a me sentir segura quanto a ele. Aprendi muitas ‘funções’, já que realizei todas as etapas da obra, e aprendi a brigar pelo meu livro, porque, acredite, teve quem tentasse levar crédito por coisas que eu fiz para o meu próprio livro! Estou perfeitamente apta para ser uma escritora de uma enorme editora, assim como sou da ‘editora’ que está dentro do meu computador, tocada por mim. Tenho um olhar mais maduro sobre o mercado, um respeito e carinho muito sincero por quem me lê, por quem me procura, se eu não tivesse me lançado assumindo tudo, talvez não fosse, ainda, capaz de enxergar a cena que vivemos agora na literatura contemporânea da mesma maneira.
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JA – Você também ministra oficinas de Autopublicação para mulheres, compartilhando seu conhecimento como uma autora que obteve muito sucesso com essa escolha. Alguma dessas participantes das oficinas já decidiu se autopublicar? Como tem sido essas oficinas? O que você pode destacar de mais relevante no que você ensina?  
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Dani Costa Russo – Sim, muitas decidiram se publicar, algumas estão perto de conseguir. O curioso dessa oficina é que sempre surgem mulheres que estão querendo apenas se livrar do sentimento de rejeição que sentiam em relação ao mercado editorial. Mulheres que querem entender porque o mercado abraça homens com as mesmas enfadonhas histórias sobre machos cheios de dilemas quase patéticos, ou com histórias de personagens femininas com as quais não nos identificamos, mas não abraça as escritoras. As oficinas têm sido como um portal: ao fim, voltam para casa consumindo literatura de forma diferente, e se lançando na literatura destemidas e com a certeza de que não precisam estar sozinhas. E é isso que posso destacar, a enorme aceitação por essa parte da oficina que explica que publicar um livro não vai ficar na oportunidade de poucos, e que se unir a outras mulheres aumenta as chances de conquistar isso.
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JA – Como sua experiência como integrante do Clube da Escrita Para Mulheres e no último ano como coordenadora do Clube tem influenciado sua escrita e sua criatividade?  
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Dani Costa Russo – Primeiramente, como integrante, eu readquiri vontade de escrever, e me senti segura com o que escrevia. Depois, aprendi sobre a rejeição do mercado às autoras, e como funciona o sistema de editoras, livrarias, premiações. Esse conhecimento mudou minhas postura diante do meu romance pronto e engavetado, e aumentou minha vontade de publicar. Como coordenadora do Clube, passei a exercitar minha criatividade ainda mais, pois preciso estudar constantemente formas de estimular a escrita das participantes para os encontros – que é muito variada, de todos os gêneros literários -, e acesso a produção delas – que é cada vez mais intensa – me abrindo muitos caminhos na mente. Muitos dos meus escritos recentes foram escritos nas reuniões do Clube e eu sou apaixonada por eles, refletem a mulher fabulosa que toda essa experiência de publicar e coordenar o Clube me tornou.
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JA – Há alguma motivação política, alguma motivação maior, na sua escrita? Há um tema principal?  
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Dani Costa Russo – Escrever é ato político, ser uma mulher que escreve e assume isso é uma ação política. A minha maior motivação é ver mais mulheres lançadas no mercado editorial, de modo que será vergonhoso para as editoras – todas elas – ainda dizerem que não há muitas autoras publicáveis quando justificam porque nos vimos cercadas por tanta publicação de homens (e com personagens homens), e um número muito menor de obras escritoras. Não tenho um tema principal na minha escrita, mas é certo que me foco nas mulheres.
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JA – Você também é jornalista, trabalha como jornalista. Isso influencia seu processo criativo? É algo que te atrapalha ou te acrescenta pontos positivos?
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Dani Costa Russo – Experiências passadas como repórter vão para sempre me influenciar, mas a minha experiência agora como jornalista em nada acrescenta ao meu trabalho literário. Posso dizer que trabalhar com redes sociais me ajudou com minhas campanhas de divulgação de Beijos no Chão e no meu lançamento como escritora, mas isso não enriqueceu minha criatividade literária.
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JA – Você está escrevendo um novo romance e publicou agora um conto na coletânea “Úmidas Paisagens” da editora Penalux. Quais as diferenças na sua escrita hoje em relação ao que você escreveu em Beijos no Chão e até mesmo antes do seu primeiro livro?  
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Dani Costa Russo – Hoje eu valorizo cada frase que escrevo. Antes de Beijos no Chão ser publicado eu era muito insegura e acreditava no que me diziam sobre minha suposta falta de potencial/talento. Quem não é uma mulher que escreve não tem como saber o que é ver sua obra diminuída constantemente por tanta gente, sobretudo por homens. Sobretudo por homens próximos que, teoricamente, deveriam, ser seu apoio, seu incentivo. Eu hoje tenho firmeza na escrita. Convicções inabaláveis. Certezas como mulher evoluída.
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 JA – Já pode nos contar algo a respeito do novo romance?
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Dani Costa Rusos – O novo romance está todo ‘picotado’ nas paredes do meu quarto, dividido em cenas escritas à mão, em vários papeis, e que ainda não foram ligadas. Brincadeira! Eu quis escrever algo geracional, algo que mostrasse a mulher urbana de hoje, que tomara que seja muito mais feliz que a mulher de amanhã. Uma intensa solidão paira no ar, uma solidão coletiva e feminina. Será do meu jeito, né: não vamos nos prender à linearidade de fatos, nem à cronologia, talvez.
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JA – E, no fim das contas, como gosta de criar a escritora Dani Costa Russo?
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Dani Costa Russo – Eu gosto de me sentir livre, absolutamente livre para escrever, então não faço nem cronograma. Até faço fichamento de personagens, mas altero tanto, que chego a abandonar muito do que decidi ao iniciar a obra. Eu gosto de ouvir música clássica e tomar saquê enquanto escrevo, e longe de mim fazer isso parecer glamouroso, porque não é: sou mãe de dois filhos, cuido sozinha dos meus filhos e da minha casa, tenho meu emprego como jornalista, coordeno o Clube da Escrita Para Mulheres, adoeço várias vezes por ano por cansaço, escrever de madrugada ao fim de um dia longo e penoso não possui glamour algum. Ouço música para despertar meus sentimentos, bebo saquê porque me alerta, afasta o sono e eu, simplesmente, acho delicioso!
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Saiba mais sobre a autora:
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“De dorso curvado pela lassidão do tempo, semblante marcado pelo medo da morte. Assevero seu padecimento doloroso na víscera abdominal direita que rouba tua braveza e deleite pela vida. Me pergunto alarmada, quando venceremos a morte?

Nessa hora minha própria existência está em questão. Penso nas escapatórias ao magnetismo letal da Senhora do Além, mas pouco vem para abater meu desespero. Vejo nos seus olhos o apagamento dos últimos sopros do agonizante que caminha rumo ao indecifrável destino.
O que eu devo esperar quando a morte vir lhe abraçar?

Aquilo que ficar de lembrança de ti que se irá quando também eu partir.”

Quem é a autora?

Glória Branco

Jornalista, documentarista e há alguns anos uma escritora entre quatro paredes. Há cerca de dois anos decidiu romper com o silêncio e revelar suas linhas escritas tão apaixonadamente.  Mantém um blog no Medium (@globranco) onde publica seus poemas e contos, normalmente, eróticos.Também da aulas de redação e tem uma agência de copywriter, a E-Books Gloriosos.

Veios

fragmentos de outono
compõem outros tempos
feitos de seda e papel
incendeiam nas dobras
rasgam-se frágeis

a aurora desmancha
mais cedo
o peso dos pesadelos

na memória fina do peito
flutuam os nós e os nãos
engasgam-se
em versos estreitos

na transparência
do verbo Ser
a vida imprime ranhuras
fios e veios
rendas e rugas
desenha velhas dúvidas…
não tece certeza alguma

Quem é a autora?

Orleide Ferreira

Paulistana, 52 anos , artesã e professora de joalheria em seu atelier. Seu elemento,  o fogo sagitariano , é o mesmo que solda metais e metáforas, forja fagulhas em versos , funde pratas, pedras e palavras no mesmo cadinho alquímico da imaginação e transforma tudo em adorno e poesia.

Ainda hoje

A gente perde as palavras
quando vê
que a morte
e o medo
são os meios

Os projéteis
enfiam na pele
Impedem a voz
destroem o corpo
perfuram os órgãos
a carne
a vida

Cada um deles
tenta
fazer desaparecer
a presença
de quem
respirava ontem

A morte
está vestida
com roupa de gala
coberta com farda
feita com as fibras
do poder

O silêncio não é quietude
nem sossego
é imposto com balas
facas
sumiços
dor
qualquer dor

Não há calmaria
a esperança
é o alvo

Quem é a autora?

Thaís Campolina

Tem 28 anos, um diploma em Direito, casos para contar e histórias para criar. É escritora, ativista, amante dos livros e apaixonada pela luta pelos direitos humanos. Administra os blogs e as páginas Ativismo de Sofá e Mulheres Notáveis, além de ser uma das organizadoras da Virada Feminista Online. No Medium, colabora com as publicações Mulheres que Escrevem, Revista Subjetiva, TRENDR e Fale Com Elas.

A mulher que foi

Morreu. Não sabe bem como foi.

Cortou os pulsos. Tomou veneno. Foi abaixo. Se jogou do alto. Soterrou. Terminou o namoro. Pedacinhos pelos trilhos do metrô, corpo jogado na linha do trólebus, na vala, na estrada.

“Muito bem” — pensou — “não sobrevivi”. Nos últimos instantes daquela que “já era”, não enxergou luz no fim do túnel, mas ouviu bem a voz grave que sussurrava firme: “morre desgraçada!”. Ela mesma falou para si.

Passou o final de semana consigo falecida.

Segunda-feira chegou e foi preciso juntar os próprios restos mortais. No caminho ao serviço (Ferrazópolis — Jabaquara), carregava suas migalhas no fundo da bolsa, estranguladas entre a sua marmita e alguém.

Sem velório e cerimônia, juntou em uma mão o que sobrou dela e caminhou rumo ao córrego do Piraporinha. Concluiu que hoje não choveria — não haveria enchente — aquilo que um dia foi ela, não voltaria com a correnteza cheia de outros restos mortais e os suores doloridos dos que transitam por ali.

Posicionou-se de costas a Nossa Senhora Aparecida — na borracharia do Seu Severino — que a tudo vê.

Encarou o rio morto e atirou as sobras do passado que um dia foi ela. Seguiu pela madrugada com velas acesas nos olhos — as chamas tremeluzentes que denunciam seu poder de morrer e nascer.

 Quem é a autora?

Sol Felix

Designer gráfico e atriz, ambos por formação. Costuma dançar até amanhecer. É também a mãe feliz do Tião que, logo mais, ilustrará seus textos. Sente-se livre para amar quem quiser e a morrer e renascer sempre que desejar.

Para ver Paulinho passar

Suspensa a pausa de mil compassos

“Para onde os dias passam?”

 

Não, que não haja tensão em absoluto com um dos deuses mais lindos

Que eu passe cheia de graça, asas de borboleta

escrava de toda beleza, feito porta-bandeira

Ó pássaro de natureza vaga, livrai-me do amargor de seus dentes de chumbo

Dancemos, pois (danço eu, dança você…)

 

I. Dos sentimentos que não enganam

 

no centro do nada

o peso da pedra

 

II. Das ações impossíveis

 

Voltar – é estar de novo

num novo lugar

Movimento circular e reverso

entre o eu e o regresso

O tempo é outro

(meu tempo é hoje – eu sou assim)

Não há retorno

– uma passagem –

é sempre só de ida

lunar

 

III. Da maturação lenta que transforma em diamantes

 

(des) peço

Desnuda e oblíqua

(de) canto em silêncio

na morada da lua

feito caranguejos lentos

que só se olham em conchas

nos anos bissextos

 

Vidraçaria Infinito

Nada ofende mais do que sobreviver a naufrágios

 

Quem é a autora?

Márcia Fráguas ou Márcia Cris Effe

Geminiana com ascendente em gêmeos, ou seja, é o duplo de si mesma e já foi muitas pessoas nessa vida. Atualmente é poeta em processo, faz mestrado em literatura brasileira na USP, em busca das relações entre poesia e música popular. Gosta de café preto sem açúcar e canções de Paulinho da Viola. Acredita que a estrada começa onde cessa o sorriso com dentes de chumbo.

História real sobre as baratas

Querida,

Meses foram embora e eu não sei explicar a dimensão da minha saudade. Anotei algumas frases na minha agenda em alguns dias desses muitos meses com a intenção de saber escrever uma carta bem completa para você. Mas, ao ler cada uma, vi que tudo estava desconexo. Você não me entenderia.

Vou contar apenas sobre o acontecimento do banheiro.

Você foi embora em uma segunda-feira. Estávamos há uma semana separados, mas juntos. Primeiro me fez chorar vertiginosamente, sem qualquer apelo que te comovesse. Algumas horas depois, o desamor te abateu e quem chorou foi você. Soluçante e infantil.

Resisti muito, jurei que não te abraçaria. Mas abracei. E passamos uma semana inteira de abraços de despedida para todo o sempre. Porque era certo que jamais voltaríamos. Não como namorados.

Você pôs sua enorme mala no bagageiro do táxi e foi embora, mas se arrependeu de me deixar tão aflito, deu a volta no quarteirão e me buscou. No aeroporto, nossa, como você foi fria. Não me olhou nem uma única vez. E não me deixou abrir a revista que comprou por pura pirraça. Nossa, querida, nossa.

A volta foi um prédio implodido dentro de mim. Desabei no meu colchão e vi a poeira dos meus entulhos levantar e desativar a minha felicidade. Como se eu fosse imune a qualquer coisa boa dali para frente. Então, quando o quarto ficou menos turvo, vi que não estava sozinho. Uma barata meio loira me olhava toda atrevida. Igual a você nas manhãs que chegava em casa depois de 14 dias sem me ver.

A barata fazia um barulho. Eu conseguia ouvir as patinhas dela tilintando no assoalho. E ficamos nós dois no quarto, eu na minha confusão de você, ela com a casca dourada passando para lá e para cá.

Recuperei-me da sua travessura de me amar, me conter, me desalmar e me enlouquecer e parti para a vida. Viajei, fiz um monte de coisa. Mas, toda vez que eu voltava era a mesma sensação de que ouviria sua voz da cozinha, ou da área de serviço, quando você inventava de lavar minhas cuecas. Eu sempre achava que você sairia do banho pingando tudo, ou que estaria tirando uma soneca no frio de Sampa que tanto te abatia, uma capixaba dada só ao sol.

Essas voltas para casa eram uma solidão. Só o que eu tinha de você era o meu armário completamente cheio das suas roupas, e nenhuma minha, pois abri espaço para você em tudo na minha vida. E, claro, os seus fios enrolados. Esses fios que se espalharam por exatamente todos os cômodos da casa. Você sempre deixou seus fragmentos pelos cantos dos cantos dos corredores nos quartos nos vidros das janelas nas estantes e nos meus tênis, enroscados nos cadarços, e nos botões dos meus casacos naquelas vezes de fila que você encostou a cabeça no meu peito, todas aquelas vezes e mais algumas.

Você é muito geminiana e muito possessiva, mas entendo, é porque me amava muito. E entendo que seu corpo soltasse teu cabelo pela casa para marcar território, para marcar a minha vida e não me deixar te esquecer. Nem a porta da geladeira escapou. Nem a boca do fogão. Nossa, querida.

Aí, toda vez que eu sentava no sofá e pensava “não sei dela, não tenho notícias, que saudade”, uma baratinha loirinha aparecia. Vinha remexendo a traseira – igual a você andando – e fazia aquele barulho das patinhas e também das antenas.

Essa cena se repetiu por meses. Algumas eram adultas, outras eram filhotes. Muitas e muitas baratas. A maioria eu matava, as outras eu deixava ir embora. A sensação que eu tinha é que elas estavam ali por sua ordem, como espiãs inspecionando a minha decepção e, ao mesmo tempo, me fazendo companhia nessa casa tão vazia.

E como tudo que vem de você é um exagero, essa demanda de baratas também foi. E, assim, chamei uma empresa especializada em matar baratas. Depois de averiguar de onde elas vinham, veio o veredito: as baratas não eram dezenas como eu imaginava. Eram centenas. Elas estavam em um fundo oco do banheiro bem abaixo do ralo do chuveiro, em um subsolo que não deveria existir, que deveria ser preenchido de concreto.

Ali estava a cidade das baratas. Era de lá que elas partiam em minha busca, todo dia uma corajosa casca dura arriscava a vida para cumprir os desejos de sua mentora: Você, querida, você.

A empresa jogou veneno e esperou a morte das pequenas e companheiras intrusas. Esperei para ver o resultado, o extermínio absoluto da nossa história. O homem de luvas saiu tirando as defuntas, puxando as nojeiras do ralo oco até que me mostrou o abuso que você, querida, me deixou: quilos do seu cabelo enrolado, quilos e quilos do seu cabelo enrolado, formando a estrutura das baratas, servindo de cama, de ninho, de ambiente, alimentando as crias, aquecendo as cascudas já velhas. Aquele cabelo todo, nossa.

Querida, gostaria de ser seu amigo. De maneira que não chorássemos e não nos despedaçássemos nos braços um do outro.

Te amo, seu querido.

Quem é a autora?

Dani Costa Russo 

Coordenadora de conteúdo do Clube da Escrita para Mulheres, autora do romance “Beijos no Chão”. O conto “História real sobre as baratas” foi escolhido para compor a edição especial em brochura do concurso literário #SweekStars de 2017.