“De dorso curvado pela lassidão do tempo, semblante marcado pelo medo da morte. Assevero seu padecimento doloroso na víscera abdominal direita que rouba tua braveza e deleite pela vida. Me pergunto alarmada, quando venceremos a morte?

Nessa hora minha própria existência está em questão. Penso nas escapatórias ao magnetismo letal da Senhora do Além, mas pouco vem para abater meu desespero. Vejo nos seus olhos o apagamento dos últimos sopros do agonizante que caminha rumo ao indecifrável destino.
O que eu devo esperar quando a morte vir lhe abraçar?

Aquilo que ficar de lembrança de ti que se irá quando também eu partir.”

Quem é a autora?

Glória Branco

Jornalista, documentarista e há alguns anos uma escritora entre quatro paredes. Há cerca de dois anos decidiu romper com o silêncio e revelar suas linhas escritas tão apaixonadamente.  Mantém um blog no Medium (@globranco) onde publica seus poemas e contos, normalmente, eróticos.Também da aulas de redação e tem uma agência de copywriter, a E-Books Gloriosos.

Veios

fragmentos de outono
compõem outros tempos
feitos de seda e papel
incendeiam nas dobras
rasgam-se frágeis

a aurora desmancha
mais cedo
o peso dos pesadelos

na memória fina do peito
flutuam os nós e os nãos
engasgam-se
em versos estreitos

na transparência
do verbo Ser
a vida imprime ranhuras
fios e veios
rendas e rugas
desenha velhas dúvidas…
não tece certeza alguma

Quem é a autora?

Orleide Ferreira

Paulistana, 52 anos , artesã e professora de joalheria em seu atelier. Seu elemento,  o fogo sagitariano , é o mesmo que solda metais e metáforas, forja fagulhas em versos , funde pratas, pedras e palavras no mesmo cadinho alquímico da imaginação e transforma tudo em adorno e poesia.

Ainda hoje

A gente perde as palavras
quando vê
que a morte
e o medo
são os meios

Os projéteis
enfiam na pele
Impedem a voz
destroem o corpo
perfuram os órgãos
a carne
a vida

Cada um deles
tenta
fazer desaparecer
a presença
de quem
respirava ontem

A morte
está vestida
com roupa de gala
coberta com farda
feita com as fibras
do poder

O silêncio não é quietude
nem sossego
é imposto com balas
facas
sumiços
dor
qualquer dor

Não há calmaria
a esperança
é o alvo

Quem é a autora?

Thaís Campolina

Tem 28 anos, um diploma em Direito, casos para contar e histórias para criar. É escritora, ativista, amante dos livros e apaixonada pela luta pelos direitos humanos. Administra os blogs e as páginas Ativismo de Sofá e Mulheres Notáveis, além de ser uma das organizadoras da Virada Feminista Online. No Medium, colabora com as publicações Mulheres que Escrevem, Revista Subjetiva, TRENDR e Fale Com Elas.

A mulher que foi

Morreu. Não sabe bem como foi.

Cortou os pulsos. Tomou veneno. Foi abaixo. Se jogou do alto. Soterrou. Terminou o namoro. Pedacinhos pelos trilhos do metrô, corpo jogado na linha do trólebus, na vala, na estrada.

“Muito bem” — pensou — “não sobrevivi”. Nos últimos instantes daquela que “já era”, não enxergou luz no fim do túnel, mas ouviu bem a voz grave que sussurrava firme: “morre desgraçada!”. Ela mesma falou para si.

Passou o final de semana consigo falecida.

Segunda-feira chegou e foi preciso juntar os próprios restos mortais. No caminho ao serviço (Ferrazópolis — Jabaquara), carregava suas migalhas no fundo da bolsa, estranguladas entre a sua marmita e alguém.

Sem velório e cerimônia, juntou em uma mão o que sobrou dela e caminhou rumo ao córrego do Piraporinha. Concluiu que hoje não choveria — não haveria enchente — aquilo que um dia foi ela, não voltaria com a correnteza cheia de outros restos mortais e os suores doloridos dos que transitam por ali.

Posicionou-se de costas a Nossa Senhora Aparecida — na borracharia do Seu Severino — que a tudo vê.

Encarou o rio morto e atirou as sobras do passado que um dia foi ela. Seguiu pela madrugada com velas acesas nos olhos — as chamas tremeluzentes que denunciam seu poder de morrer e nascer.

 Quem é a autora?

Sol Felix

Designer gráfico e atriz, ambos por formação. Costuma dançar até amanhecer. É também a mãe feliz do Tião que, logo mais, ilustrará seus textos. Sente-se livre para amar quem quiser e a morrer e renascer sempre que desejar.

Para ver Paulinho passar

Suspensa a pausa de mil compassos

“Para onde os dias passam?”

 

Não, que não haja tensão em absoluto com um dos deuses mais lindos

Que eu passe cheia de graça, asas de borboleta

escrava de toda beleza, feito porta-bandeira

Ó pássaro de natureza vaga, livrai-me do amargor de seus dentes de chumbo

Dancemos, pois (danço eu, dança você…)

 

I. Dos sentimentos que não enganam

 

no centro do nada

o peso da pedra

 

II. Das ações impossíveis

 

Voltar – é estar de novo

num novo lugar

Movimento circular e reverso

entre o eu e o regresso

O tempo é outro

(meu tempo é hoje – eu sou assim)

Não há retorno

– uma passagem –

é sempre só de ida

lunar

 

III. Da maturação lenta que transforma em diamantes

 

(des) peço

Desnuda e oblíqua

(de) canto em silêncio

na morada da lua

feito caranguejos lentos

que só se olham em conchas

nos anos bissextos

 

Vidraçaria Infinito

Nada ofende mais do que sobreviver a naufrágios

 

Quem é a autora?

Márcia Fráguas ou Márcia Cris Effe

Geminiana com ascendente em gêmeos, ou seja, é o duplo de si mesma e já foi muitas pessoas nessa vida. Atualmente é poeta em processo, faz mestrado em literatura brasileira na USP, em busca das relações entre poesia e música popular. Gosta de café preto sem açúcar e canções de Paulinho da Viola. Acredita que a estrada começa onde cessa o sorriso com dentes de chumbo.

História real sobre as baratas

Querida,

Meses foram embora e eu não sei explicar a dimensão da minha saudade. Anotei algumas frases na minha agenda em alguns dias desses muitos meses com a intenção de saber escrever uma carta bem completa para você. Mas, ao ler cada uma, vi que tudo estava desconexo. Você não me entenderia.

Vou contar apenas sobre o acontecimento do banheiro.

Você foi embora em uma segunda-feira. Estávamos há uma semana separados, mas juntos. Primeiro me fez chorar vertiginosamente, sem qualquer apelo que te comovesse. Algumas horas depois, o desamor te abateu e quem chorou foi você. Soluçante e infantil.

Resisti muito, jurei que não te abraçaria. Mas abracei. E passamos uma semana inteira de abraços de despedida para todo o sempre. Porque era certo que jamais voltaríamos. Não como namorados.

Você pôs sua enorme mala no bagageiro do táxi e foi embora, mas se arrependeu de me deixar tão aflito, deu a volta no quarteirão e me buscou. No aeroporto, nossa, como você foi fria. Não me olhou nem uma única vez. E não me deixou abrir a revista que comprou por pura pirraça. Nossa, querida, nossa.

A volta foi um prédio implodido dentro de mim. Desabei no meu colchão e vi a poeira dos meus entulhos levantar e desativar a minha felicidade. Como se eu fosse imune a qualquer coisa boa dali para frente. Então, quando o quarto ficou menos turvo, vi que não estava sozinho. Uma barata meio loira me olhava toda atrevida. Igual a você nas manhãs que chegava em casa depois de 14 dias sem me ver.

A barata fazia um barulho. Eu conseguia ouvir as patinhas dela tilintando no assoalho. E ficamos nós dois no quarto, eu na minha confusão de você, ela com a casca dourada passando para lá e para cá.

Recuperei-me da sua travessura de me amar, me conter, me desalmar e me enlouquecer e parti para a vida. Viajei, fiz um monte de coisa. Mas, toda vez que eu voltava era a mesma sensação de que ouviria sua voz da cozinha, ou da área de serviço, quando você inventava de lavar minhas cuecas. Eu sempre achava que você sairia do banho pingando tudo, ou que estaria tirando uma soneca no frio de Sampa que tanto te abatia, uma capixaba dada só ao sol.

Essas voltas para casa eram uma solidão. Só o que eu tinha de você era o meu armário completamente cheio das suas roupas, e nenhuma minha, pois abri espaço para você em tudo na minha vida. E, claro, os seus fios enrolados. Esses fios que se espalharam por exatamente todos os cômodos da casa. Você sempre deixou seus fragmentos pelos cantos dos cantos dos corredores nos quartos nos vidros das janelas nas estantes e nos meus tênis, enroscados nos cadarços, e nos botões dos meus casacos naquelas vezes de fila que você encostou a cabeça no meu peito, todas aquelas vezes e mais algumas.

Você é muito geminiana e muito possessiva, mas entendo, é porque me amava muito. E entendo que seu corpo soltasse teu cabelo pela casa para marcar território, para marcar a minha vida e não me deixar te esquecer. Nem a porta da geladeira escapou. Nem a boca do fogão. Nossa, querida.

Aí, toda vez que eu sentava no sofá e pensava “não sei dela, não tenho notícias, que saudade”, uma baratinha loirinha aparecia. Vinha remexendo a traseira – igual a você andando – e fazia aquele barulho das patinhas e também das antenas.

Essa cena se repetiu por meses. Algumas eram adultas, outras eram filhotes. Muitas e muitas baratas. A maioria eu matava, as outras eu deixava ir embora. A sensação que eu tinha é que elas estavam ali por sua ordem, como espiãs inspecionando a minha decepção e, ao mesmo tempo, me fazendo companhia nessa casa tão vazia.

E como tudo que vem de você é um exagero, essa demanda de baratas também foi. E, assim, chamei uma empresa especializada em matar baratas. Depois de averiguar de onde elas vinham, veio o veredito: as baratas não eram dezenas como eu imaginava. Eram centenas. Elas estavam em um fundo oco do banheiro bem abaixo do ralo do chuveiro, em um subsolo que não deveria existir, que deveria ser preenchido de concreto.

Ali estava a cidade das baratas. Era de lá que elas partiam em minha busca, todo dia uma corajosa casca dura arriscava a vida para cumprir os desejos de sua mentora: Você, querida, você.

A empresa jogou veneno e esperou a morte das pequenas e companheiras intrusas. Esperei para ver o resultado, o extermínio absoluto da nossa história. O homem de luvas saiu tirando as defuntas, puxando as nojeiras do ralo oco até que me mostrou o abuso que você, querida, me deixou: quilos do seu cabelo enrolado, quilos e quilos do seu cabelo enrolado, formando a estrutura das baratas, servindo de cama, de ninho, de ambiente, alimentando as crias, aquecendo as cascudas já velhas. Aquele cabelo todo, nossa.

Querida, gostaria de ser seu amigo. De maneira que não chorássemos e não nos despedaçássemos nos braços um do outro.

Te amo, seu querido.

Quem é a autora?

Dani Costa Russo 

Coordenadora de conteúdo do Clube da Escrita para Mulheres, autora do romance “Beijos no Chão”. O conto “História real sobre as baratas” foi escolhido para compor a edição especial em brochura do concurso literário #SweekStars de 2017.