Veios

fragmentos de outono
compõem outros tempos
feitos de seda e papel
incendeiam nas dobras
rasgam-se frágeis

a aurora desmancha
mais cedo
o peso dos pesadelos

na memória fina do peito
flutuam os nós e os nãos
engasgam-se
em versos estreitos

na transparência
do verbo Ser
a vida imprime ranhuras
fios e veios
rendas e rugas
desenha velhas dúvidas…
não tece certeza alguma

Quem é a autora?

Orleide Ferreira

Paulistana, 52 anos , artesã e professora de joalheria em seu atelier. Seu elemento,  o fogo sagitariano , é o mesmo que solda metais e metáforas, forja fagulhas em versos , funde pratas, pedras e palavras no mesmo cadinho alquímico da imaginação e transforma tudo em adorno e poesia.

Extremos

os extremos
opostos
que se cuidem

buscam tanto
se afastar
um do outro
que se esquecem
da mais básica lição:

o mundo
é redondo.

de tanto fugir
logo darão as mão.

ceia

na mesa larga e cheia
a cena
mais pintada
em todas as memórias

a superfície
dos pratos
e dos semblantes
quase vazios

repetidas fotografias
e falas

o milagre dos bons modos
e dos movimentos previsíveis
coreografados

falar da fome te estragaria o apetite?

do oco invisível
que sustenta a matéria humana
ninguém se pergunta?

fujo do roteiro
desobedeço e boto novas cartas nessa mesa

embrulho teu estômago
pra viagem
e dou pra alguém comer no caminho

Quem é a autora?

Janaína Moitinho

Educadora e aprendiz, poeta, dos saraus, dos slams, paulista de alma mineira; acredita que poesia se faz e vive além das linhas e agradece os encontros, de páginas e caminhos. Publicações: zine “fôlego” (2016) e o livreto “pedaços” (2017)

Decênio

Anna Clara de Vitto

há dez anos
que o meu braço esquerdo
queima

dez anos
e na verdade
eu não me lembro
qual o braço

mas não esqueço:

dez anos
que alfabetizados
meus ouvidos
na tua língua odienta

afasta de mim
essa saliva
infecta

que desfecho:
você disse
que de mim
nada sobraria

nada

nem fresta
nem traço

(larga do meu braço moço
eu peço
e peço
e peço
e me despedaço)

nem fração

dez anos
que ando
sobrando
escorrendo
pelos dedos
pegajosos
das ruas
de miasmas
masculinos

de mim sobrou
quase tudo
menos
o medo.