Ele não é um mal necessário

Eu ouço o nome dele ou o apelido injustificável “mito” sendo dito para ameaçar as amigas travestis

Antes nem fossem minhas conhecidas, a ameaça ainda me amedrontaria

Não só porque sou mulher, o que já bastaria

Mas somos todas e todos aqueles que se indignam e que sofrem por se importarem e que dizem #elenão; somos os cidadãos identificados como alvo

Somos potenciais presas a lutar enquanto livres para não sermos capturados por um governo na esteira do golpe, dito radicalização justificada ou única mudança possível, mas que é intolerância autoritária e desmonte

Imagino o conforto com que machistas racistas homofóbicos preconceituosos em geral vão apontar dedos ou revólveres ou praticar seus comportamentos mais condenáveis ao se identificarem com o presidente do país

Uma vez o pobre se viu na presidência da república e pôde se sentir digno, tem quem ache que foi ousadia

Quem diz as palavras de ódio quer responder com armas de fogo, prefere ser criminoso, e não dialoga mais

Os de bom senso, eleitores envergonhados dele, crentes no combate a uma ideologia: se abstenham!

Não sejam culpados pela violência que se anuncia

 

Priscila Kerche é participante do Clube da Escrita para Mulheres e escreve no https://medium.com/@priscila.kerche

#elenão

Não, não é dele que eu tenho medo

Ele não passa de um homenzinho zangado

 

O meu medo é do senhor

cidadão de bem

descrente da democracia

cheio de raiva e vazio de empatia

Amparado pelo ódio

em busca de um culpado

louco pra fazer justiça

(a sua justiça)

com uma arma na mão

 

O meu medo é do que ele já fez

com o meu vizinho

meu irmão

Do que ele legitima

do que ele incita o senhor a fazer

 

Eu entendo a sua raiva

de verdade

eu entendo

 

Mas será que o senhor não consegue entender o meu medo?

 

Aline Caixeta

#EleNão

#EleNão

I
Não nasci menor porque tenho vagina,
porque sou preta, filha de nordestina.

Na minha pele e no meu sangue carrego
ancestralidade que me faz bater no peito
e dizer com gosto e coragem:

Ele, NÃO!

II
Minha arma é a educação que carrego,
e a paz pela qual luto.
Minha arma é diversa, por certo,
com certeza, não é grito mudo.

Ela extravasa e com ela me empodero,
me solidarizo e com ela ganho voz.
Seguindo unida a outras mulheres contra esse algoz,
nossas vozes juntas se rebelam:
Ele, NÃO!

 

Fernanda Rodrigues

Por que ele não?

Por que ele não?

Como viver em um mundo mergulhado no ódio?
Como não se afogar e sobreviver?
Como resistir?

Como conviver com pessoas,
que por ignorância ou falta de caráter,
legitimam esse mar de ódio

Como viver e criar um filho?
Que futuro sombrio bate à nossa porta?

Como conviver com pessoas próximas,
que desejam abrir as compotas
dessa barragem
Uma caixa de Pandora
encontrada no fundo de um oceano,
que parecia tranquilo

Como viver e respirar?
Ou não respirar e se afogar?
Se afogar não é opção!

Como conviver e sobreviver?
Lutemos pois por águas calmas, cristalinas
Por um futuro próximo
No qual possamos respirar
E criar nossos filhos
Para que outros ditadores mal-acabados
não se arvorem a agitar as águas,
elevar o nível do mar,
inundando de ódio
nosso planeta Terra,
nosso país,
nosso habitat,
nossa casa!
Ele não!

 

Vilma Gama

Poetisa anarquista  -cidadã do mundo –
navega de Manoel de Barros a Maiakóvski –
de Cora Coralina a Cecília Meireles.

Veios

fragmentos de outono
compõem outros tempos
feitos de seda e papel
incendeiam nas dobras
rasgam-se frágeis

a aurora desmancha
mais cedo
o peso dos pesadelos

na memória fina do peito
flutuam os nós e os nãos
engasgam-se
em versos estreitos

na transparência
do verbo Ser
a vida imprime ranhuras
fios e veios
rendas e rugas
desenha velhas dúvidas…
não tece certeza alguma

Quem é a autora?

Orleide Ferreira

Paulistana, 52 anos , artesã e professora de joalheria em seu atelier. Seu elemento,  o fogo sagitariano , é o mesmo que solda metais e metáforas, forja fagulhas em versos , funde pratas, pedras e palavras no mesmo cadinho alquímico da imaginação e transforma tudo em adorno e poesia.

Extremos

os extremos
opostos
que se cuidem

buscam tanto
se afastar
um do outro
que se esquecem
da mais básica lição:

o mundo
é redondo.

de tanto fugir
logo darão as mão.

ceia

na mesa larga e cheia
a cena
mais pintada
em todas as memórias

a superfície
dos pratos
e dos semblantes
quase vazios

repetidas fotografias
e falas

o milagre dos bons modos
e dos movimentos previsíveis
coreografados

falar da fome te estragaria o apetite?

do oco invisível
que sustenta a matéria humana
ninguém se pergunta?

fujo do roteiro
desobedeço e boto novas cartas nessa mesa

embrulho teu estômago
pra viagem
e dou pra alguém comer no caminho

Quem é a autora?

Janaína Moitinho

Educadora e aprendiz, poeta, dos saraus, dos slams, paulista de alma mineira; acredita que poesia se faz e vive além das linhas e agradece os encontros, de páginas e caminhos. Publicações: zine “fôlego” (2016) e o livreto “pedaços” (2017)

Decênio

Anna Clara de Vitto

há dez anos
que o meu braço esquerdo
queima

dez anos
e na verdade
eu não me lembro
qual o braço

mas não esqueço:

dez anos
que alfabetizados
meus ouvidos
na tua língua odienta

afasta de mim
essa saliva
infecta

que desfecho:
você disse
que de mim
nada sobraria

nada

nem fresta
nem traço

(larga do meu braço moço
eu peço
e peço
e peço
e me despedaço)

nem fração

dez anos
que ando
sobrando
escorrendo
pelos dedos
pegajosos
das ruas
de miasmas
masculinos

de mim sobrou
quase tudo
menos
o medo.