Jacira

Preta. Gorda. Velha.
A primeira a levantar, a última a dormir. Quando dorme, já que tem noites que a menina chora.

Seus passos, lentos, pesarosos e dolorosos, são como os de um fantasma pela grande casa. Há anos aprendeu que deve ser invisível.

Menos quando a menina chora, quando precisam que ela resolva qualquer problema menor do cotidiano.

Suas roupas, seu cabelo e sua pele são sempre alho, cebola e gordura. Mesmo a noite, depois do banho, do cheiro breve de limpeza, o alho, a cebola e a gordura ainda estão lá. Sempre estão lá, como um sutil lembrete.

Quase não se lembra de nada de antes. Não saberia dizer se já teve sonhos ou desejos ou qualquer coisa sua, saída de sua própria cabeça.

A senhora foi a Igreja. Mais uma vez a menina ficou, a menina dócil de cabelo loiro e pele branca. Os filhos que Jacira não teve e nunca terá. Toda uma vida que não teve e nunca terá.

Sua existência resumida num poema romantizado sobre a doce serviçal. Continuar lendo Jacira