Rastros pelo caminho

Baratas, escuro, agulhas. Eu tinha medo de andar de carro.  A cada curva, ou fechada, o tempo parava. Voltava a correr só quando verificava que não era chegada a hora de morrer. Novamente respirava oxigênio.

Viajar para Ubatuba era uma tormenta. Vislumbrava o carro trespassando o guarde-reio em todas as sinuosidades. Parei de participar dos rodízios na direção. Ninguém me aguentava dirigindo tão devagar, mas não conseguia evitar. Me via estatelada no chão a cada ziguezague.

Novos Baianos saía gritado pelas caixas de som do Ford Ka alugado. Havia aumentado o som há poucos minutos. O farol alto do carro era tudo que iluminava a estrada à nossa frente. Anoitecera há pouco e o marinho no céu que surgia apresentava as últimas nuances alaranjadas.

– Não quero subir por lá! – protestei mais cedo.

– Rafa, para de frescura. Todo mundo fala que a paisagem é incrível.

Podíamos voltar de Laguna pela BR-101, mesmo caminho que fizemos vindo de Lages, mas o pessoal queria novidade. Subir pela Serra do Rio do Rastro, em meio a Mata Atlântica catarinense. O lugar parecia bonito pelas fotos, mas era 01 de Janeiro e quase 16h da tarde. Se pegássemos o menor trânsito faríamos o recurvado trecho no escuro. Dava arrepio só de imaginar.

– Rafaela, é das estradas mais bonitas do mundo.

Democracia não dá espaço para preferências ou medos pessoais. Foram três votos contra um. Perdi. Fui no banco da trás, agarrada ao encosto da frente, respirando profundamente e rezando para todos os santos e orixás que conhecia mas duvidava que existiam.

As pessoas que abriram essa estrada no passado se preocuparam pouco com os ângulos. Parecia que enquanto cerziam o caminho, a máquina de costura emperrou e a linha pregou mais vezes do que devia no mesmo pedaço de tecido. A rota tinha mais cotovelos que Shiva. Mas era impossível negar, o caminho era de um verde deslumbrante. Os pássaros cantavam diferente ali, ecoavam liberdade.

Ao alcançarmos o mirante no topo da Serra, descemos. O sol lançava seus últimos suspiros antes de mergulhar no mar de montanhas. A estrada descia de onde estávamos até a costa, como um rio cortando a serra. Rastro de asfalto.

– E aí, valeu a pena o frio na barriga? – perguntou Pedro, colocando o braço em volta da minha cintura. Abracei-o de volta, enquanto permanecíamos olhando a paisagem, até o último raio dar lugar às primeiras estrelas.

Voltamos ao Ka e seguimos rumo ao aeroporto pela estrada agora retilínea. Sentei-me na frente. Abrimos mais os vidros para curtir o vento, e os últimos minutos de atmosfera silenciosa, onde o volume do som era alto por gosto à música e não para disfarçar o ruído externo. Logo voltaríamos para São Paulo, o caos da rotina, e o céu e chão cinzento.

Aumentei mais ainda o som.

E se você fecha o olho a menina dança. Dentro da menina, ainda dança.

O farol do carro refletiu duas pequenas luzes. Bem miúdas, como jazidas. Olhos nos miravam fixamente. Um macaco bugio estava parado no meio da estrada. Pelugem marrom clara. Primeiro espécime que vi na vida.

João desviou o Ka paro lado e saímos da estrada. A roda dianteira enroscou em alguma coisa. Derrapamos. Quando o carro começou a capotar, Baby do Brasil cantava.

Quando cheguei tudo, tudo estava virado. E a gente virava.

Tudo, tudo estava virado. Três, quatro viradas. E a guitarra do Pepeu comendo solta.

Apenas viro, me viro, mas eu mesma viro os olhinhos. Parou na sexta virada e meia. O capô amassado me prendia à lataria. Senti meu corpo esquentar. O cinto apertar. Não quis olhar. O quente poderia ser a adrenalina, suor, ou sangue. Ou tudo. Ninguém falou nada, além da Baby. Os pássaros lá fora ecoavam outra coisa agora. Nos preparavam para outro silêncio.

Besta é tu. Besta é tu. Não viver este mundo, se não há outro mundo.


 

Quem é a autora?

Ana Squilanti

Coordenadora do Clube da Escrita, a paulista que puxa o R escreve sobre personagens possíveis. Vê na rotina sua poesia.

Decênio

Anna Clara de Vitto

há dez anos
que o meu braço esquerdo
queima

dez anos
e na verdade
eu não me lembro
qual o braço

mas não esqueço:

dez anos
que alfabetizados
meus ouvidos
na tua língua odienta

afasta de mim
essa saliva
infecta

que desfecho:
você disse
que de mim
nada sobraria

nada

nem fresta
nem traço

(larga do meu braço moço
eu peço
e peço
e peço
e me despedaço)

nem fração

dez anos
que ando
sobrando
escorrendo
pelos dedos
pegajosos
das ruas
de miasmas
masculinos

de mim sobrou
quase tudo
menos
o medo.