Jacira

Preta. Gorda. Velha.
A primeira a levantar, a última a dormir. Quando dorme, já que tem noites que a menina chora.

Seus passos, lentos, pesarosos e dolorosos, são como os de um fantasma pela grande casa. Há anos aprendeu que deve ser invisível.

Menos quando a menina chora, quando precisam que ela resolva qualquer problema menor do cotidiano.

Suas roupas, seu cabelo e sua pele são sempre alho, cebola e gordura. Mesmo a noite, depois do banho, do cheiro breve de limpeza, o alho, a cebola e a gordura ainda estão lá. Sempre estão lá, como um sutil lembrete.

Quase não se lembra de nada de antes. Não saberia dizer se já teve sonhos ou desejos ou qualquer coisa sua, saída de sua própria cabeça.

A senhora foi a Igreja. Mais uma vez a menina ficou, a menina dócil de cabelo loiro e pele branca. Os filhos que Jacira não teve e nunca terá. Toda uma vida que não teve e nunca terá.

Sua existência resumida num poema romantizado sobre a doce serviçal. Continuar lendo Jacira

Decênio

Anna Clara de Vitto

há dez anos
que o meu braço esquerdo
queima

dez anos
e na verdade
eu não me lembro
qual o braço

mas não esqueço:

dez anos
que alfabetizados
meus ouvidos
na tua língua odienta

afasta de mim
essa saliva
infecta

que desfecho:
você disse
que de mim
nada sobraria

nada

nem fresta
nem traço

(larga do meu braço moço
eu peço
e peço
e peço
e me despedaço)

nem fração

dez anos
que ando
sobrando
escorrendo
pelos dedos
pegajosos
das ruas
de miasmas
masculinos

de mim sobrou
quase tudo
menos
o medo.